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A justificação pela fé

Estamos nos aproximando da data de 31 de outubro, data aniversário da Reforma protestante (498 anos já!). A oportunidade é excelente para relembrar algo acerca da justificação pela fé – uma doutrina que foi central na recuperação dos ensinos bíblicos.

Em primeiro lugar, é fundamental definir o que é a Justiça: é a conformidade com a Lei de Deus. Ela se reflete no fato de os crentes andarem nos preceitos e mandamentos do Senhor, alinhando seus afetos, sua razão, sua vontade e seu comportamento à vontade revelada de Deus nas Santas Escrituras. Além disso, a justiça de Deus é o modo com que Ele trata o seu povo com base na Aliança. Por fim, a justiça é um atributo divino, ao lado da santidade, da ira, do amor, da graça, da misericórdia…

A Bíblia afirma claramente que não há um justo sequer (Rm. 3:10) e que jamais ninguém conseguiu guardar a Lei (At. 15:10; Gl. 5:3; Gl. 6:13; Hb. 7:19; Tg. 2:10). De mais a mais, a maldição da Lei e a ira de Deus repousam sobre a raça humana não convertida (Rm. 1:18; Rm. 3:23; 2Ts. 1:7-9). É por isso também que Paulo declara que a justiça não pode ser obtida pela obediência à Lei – o que, aliás, tornaria inútil o sacrifício de Cristo, pois se o homem fosse capaz de alcançar a justiça por si mesmo, chegando assim a agradar a Deus pela prática das obras da lei, para quê então serviria a morte de Cristo na cruz?!

Uma vez que a justiça não pode ser obtida pela obediência à Lei, os benefícios desta mesma Lei são imputados (atribuídos) aos eleitos somente pela Justiça de Cristo, pois Jesus é o JUSTO por excelência – o único JUSTO por essência (1Pe. 3:18: Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito”. 1Jo. 2:29: “Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele”. 1Jo. 3: “Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como Ele é justo). É somente porque Cristo é Justo que os crentes que estão enxertados nEle podem também ser chamados de justos.

Por outro lado, a “lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gl. 3:24) e é por isso que a justificação se dá por fé.

Entendamos bem o assunto: a salvação é pela graça (a fonte), mas é por meio da fé que ela é obtida, de sorte que a fé não é a fonte ou da causa da salvação dos eleitos, mas somente o instrumento para alcançá-la (como se ela fosse alguma espécie de “muleta espiritual”). Aliás, é o único instrumento que nos é dado por Deus para a salvação, pois sem fé, é impossível agradar a Deus (Hb. 11:6). A Reforma Protestante resgatou este importante ensino bíblico com o lema Sola Fide (pela fé somente).

O importante é entender que a fé não pode ser gerada por nós mesmos – a partir do nosso interior -, pois enquanto não somos regenerados, somos mortos espiritualmente e incapazes, portanto, de qualquer coisa que agrade a Deus. Pelo contrário: a fé que o crente é chamado a exercer é-lhe dada por Deus como se fosse um presente (é um dom divino), como tão bem nos assevera a Palavra de Deus, em Ef. 2:8 (Pela graça, sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós: é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie). Equipado sobrenaturalmente com a fé recebida de Deus, o crente, então, a exerce no poder do Espírito Santo e, a partir daquele momento, é chamado de justo (pois está revestido da justiça de Cristo: a nudez espiritual do crente está coberta com o manto dessa justiça) e passa a viver por fé (Rm. 1:17; Gl. 3:11, Hb. 10:38).

É reconfortante saber que a salvação é pela graça, o que significa que é gratuita. É algo que não podemos alcançar pelos nossos próprios esforços: Deus faz por nós aquilo que somos incapazes de fazer (e Ele o faz exatamente por isso!). Somos salvos graciosamente pela Obra de Cristo e pelo seu cumprimento (ativo e passivo) da Lei em nosso lugar. É pela Obra de Cristo que os eleitos são salvos, pois só Cristo consegue fazer o que nenhum homem é capaz de cumprir (guardar toda a Lei e, além disso, ser morto na cruz sob o peso da maldição dessa mesma Lei por causa da culpa judicial pelos nossos pecados).

É glorioso saber que a nossa sentença de morte foi transformada em sentença de absolvição: o Justo recebeu sobre Si a responsabilidade penal pelos pecados dos eleitos e, em troca – GRACIOSAMENTE – os beneficiou com a Sua justiça. Esta troca bendita faz com que sejamos declarados e considerados justos diante do tribunal de Deus.

É esta a boa nova que devemos proclamar ao mundo, não apenas na proximidade do Dia da Reforma, mas agora e sempre. Amém!

Rev. Alain Paul L. Rocchi. Publicado no Boletim 944 | 18 de outubro de 2015.

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